quarta-feira, 28 de março de 2012

"Jogos Vorazes" de Gary Ross 2012


Impossível assistir este filme e não lembrar do Big Brother e dos inúmeros reality shows que se tornaram grandes fenômenos e 'febre' de audiência em todo o mundo, desde a década de 70. A velha receita da antigüidade do 'panes e cirque' (pão e circo) foi atualizada pelos novos meios de comunicação, através da televisão e computador.

Aparentemente inofensivos, a atração humana pelo reality show já poderia ser justificada pela curiosidade científica sobre o condicionamento humano em pesquisas iniciadas na Psicologia, em estudos sobre comportamento e mente humana, a partir de estímulos positivos e negativos, que resultam em determinadas ações. Como agimos e pensamos diante de determinados estímulos?! E como a plateia reage diante destas ações?!

Esta combinação de controle, curiosidade e poder do reality show, parece ser uma boa receita de sucesso televisivo para um público sedento por entretenimento e efeitos 'anéstesicos', típico da cultura de massa. E um filme como "Jogos Vorazes", que aborda este assunto de forma implícita, sem mediação ou preparo do 'olhar', talvez seja 'lido' como pura ação, fiel à narrativa clássica, com um esperado 'happy end'. 

Porém, com a devida reflexão, podemos tomá-lo como ponto de partida para estabelecer relações diversas.

"Jogos Vorazes" é uma adaptação fílmica de um romance de ficção científica (que eu ainda não li) para jovens e adultos, originalmente publicado em 2008, escrito pela 'norte-americana' Suzanne Collins.

A trama se passa num mundo pós-apocalíptico, caracterizado pela miséria, fome, guerra e nova distribuição de poder, onde a jovem protagonista Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), vive num dos 12 distritos do país Panem (referência à expressão Pane&Cirque), cujo poder está centralizado na Capital, e todo ano, 2 jovens de cada um desses distritos, entre 12 e 18 anos, menino e menina, são sorteados e oferecidos como tributo, para ingressar num programa anual de televisão, chamado Jogos Vorazes, onde precisam sobreviver num ambiente hostil e lutar entre si até a morte, quando restar apenas um vencedor. Katniss se torna voluntária dos jogos para proteger a irmã caçula.

Esta estrutura narrativa poderia funcionar como uma crítica e alegoria  da nossa sociedade 'do espetáculo' atual, onde o entretenimento é utilizado para distrair e controlar a 'massa', enquanto outros mecanismos perpetuam uma organização social desigual e injusta. Os distritos no filme representam a classe operária, que é essencial para sustentar a nação, através de seu trabalho 'braçal' e produtivo (grãos, energia, construção, etc), mas é aprisionada e condicionada a aceitar ordens e inscrever suas crianças no reality show, em troca de comida e sobrevivência. 

Crianças e jovens, ora assustados, ora corajosos, 'jogados' numa competição que não querem (ou querem) fazer parte, para que a ordem reine entre os povos. Seres humanos sendo usados como moeda de troca ou produtos de consumo, coroando o consumismo extremo, onde 'o direito à vida' é completamente desvalorizado e desconsiderado.

Seria também uma alegoria da educação atual?! Treinar crianças e jovens para a 'selva' do mercado de trabalho, transformando-os em trabalhadores (lutadores, vencedores) e não em empreendores e pessoas felizes. Transformando-os em força de trabalho, mas não em intelectuais, filósofos e pensadores, que possam refletir sobre a própria condição e superá-la!


Katniss Everdeen representa risco à Capital, pois apresenta a coragem de uma guerrilheira, e a ousadia e generosidade de uma líder nata, sedenta por transformação. Não concorda com o sistema, mas encontra uma forma de confrontá-lo, sem ser eliminada por ele. Na competição, ela luta para sobreviver, sem perder a dignidade e humanidade.

Na trajetória de Katniss, conhecemos os bastidores do programa, através da equipe de preparação da dupla do distrito 12, que precisa impressionar pela aparência e postura, patrocinadores interessados e um público fiel e generoso. 

A futilidade desse público (nós, quando espectadores 'cegos e surdos') é bem representada pelas roupas, acessórios, cabelos e maquiagens coloridas, que contrastam com as roupas simples e básicas dos povos dos distritos, e 'satiziram' o excessivo culto à beleza e aparência de nossa sociedade atual.


Somente alguém vestindo algo tão 'supéfluo' poderia se entreter com um programa como "Jogos Vorazes" e desconsiderar a crueldade imposta por quem governa seu país. Somente alguém tão 'cego, surdo e mudo' poderia divertir-se com doces, decoração e roupas, e não se importar com a real preocupação dos jovens que foram forçados a lutar entre si e arriscar a própria vida por tão pouco.
 
 

O apresentador de "Jogos Vorazes" lembra nosso 'querido' Pedro Bial e poderia representar todas as celebridades, super valorizadas por um público fútil, que não enxerga sua condição real e toda injustiça a sua volta. Nada faz para combatê-la, nem como público, nem como vítima. A desigualdade social, entre classes dominantes e dominadas, entre aqueles que 'supervivem' e os que sobrevivem permanece intacta. 

Crianças e jovens anônimos, que passam a ser cultuados e admirados como se fossem uma bolsa Prada, um enorme iate, uma linda Ferrari, um belíssimo par de brincos. Crianças e jovens que se tornam produtos de entretenimento, como os reais participantes dos nossos reality shows, que nem percebem os objetos que são, totalmente descartáveis e substituíveis.

Se sofrem de amor, é ainda melhor, pois até o 'ideal do amor' se torna um produto a ser comercializado. (Com sexo, então!) Quanto mais sofrimento, mais 'generosidade' e 'caridade', pois é bom se 'sentir' generoso e humano, ao dar uma nova chance, ao torcer, chorar e sorrir com o sofrimento alheio, seja ele de personagens de um filme, livro ou teatro, seja um personagem de si mesmo, frágil e totalmente humano.

"Jogos Vorazes" é um ponto de partida para discutir a sociedade do espetáculo, do consumismo excessivo, da maneira 'alheia' de lidar com a própria condição humana atual. é um 'tapa na cara' de quem é 'público' e de quem se recusa a ser.

O problema não está em quem consome e no que consome, mas no porquê consome. É por necessidade?! Se eu admito consumir 'entretenimento' nos dias em que quero esvaziar minha mente, 'até' tudo bem. O problema está em querer esvaziar a mente o tempo todo, sem nem se dar conta disso, usando o entretenimento como um vício, como uma droga, um entorpecente, que suspende a 'realidade' e nos mantém sempre 'anestesiados' de tudo e todos! E pior, sendo explorado e explorando os outros, enquanto isso.

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